Entrevista a John Bradley-West (2.ª parte)

Aqui está a segunda parte da entrevista, cuja versão original podem encontrar no Westeros

No início das filmagens, disseste que não tinhas lido o livro, mas cedeste algures a meio do caminho. Estavas a ler o livro enquanto ainda estavas a filmar? Foi útil para a tua representação?

Li o livro quando estava nas últimas etapas das filmagens. Principalmente porque comecei a ficar muito curioso acerca da história de uma forma geral. Na altura, nada mais havia que pudesse dar ao Samwell. As decisões tinham sido tomadas e eu fiquei-me por elas. As relações estabeleceram-se e a atitude e a motivação cimentaram-se. Conhecia a personagem da minha pesquisa e da variedade de pistas que estava no guião, tanto nos diálogos como nas direcções. Com uma escrita tão boa, cada frase contém indicações para tudo o que um actor necessita para formar uma personagem e uma representação.

Estudei as falas do Samwell com a atenção forense ao detalhe que elas mereciam. Os escritores decidiram manter, expandir, ignorar, suavizar ou refinar diferentes elementos da personagem que aparecia no livro. Confiei que tinham tomadas as decisões certas no que respeita a esses elementos, aceitei as suas intenções para a personagem e comecei a trabalhar com o que tinha.

À medida que as filmagens começaram a desacelerar, permiti-me a mim próprio ler o livro de forma apropriada. Nunca soube o que se passava nos episódios 1 e 2. Não entro neles, nunca os recebi e não estive presente na sua leitura. Conseguir lê-los sabendo quem ia representar cada uma das personagens foi um luxo com o qual me deleitei. As vozes saltavam das páginas. O Sean É o Ned e o Kit É o Jon, etc.

Uma vez que os livros são obviamente mais detalhados na descrição e na exposição que os guiões, as decisões, em especial no que diz respeito ao elenco, confirmaram-se dez vezes na minha cabeça. O livro fez a minha cabeça derreter ao pensar no tamanho da tarefa dos designers de produção e das pessoas dos efeitos especiais. A gloriosa falta de limites do George em termos de profundidade e número de personagens, incrivelmente específicas mas ao mesmo tempo com uma abrangente e imponente geografia, e ao mesmo tempo uma história profundamente humana e em termos motivacionais perfeitamente válida, só podem ser aplaudidos por todos os que a lerem.

Estou contente por não ter ficado demasiado envolvido com os livros antes de ficar com o papel, porque os guiões são muito poderosos em termos do que é visto no ecrã. Estou contente por finalmente tê-lo lido porque confirma que as escolhas feitas por todos os envolvidos na série parecer ser correctas. Farei o mesmo com o A Clash of Kings apenas para preencher os vazios. É uma parte genuína do meu método. Penso que todo o drama está no detalhe. É sobre ser claro na tua intenção e nas relações. Se tentares igualar o tamanho da história e do mundo como um todo na tua representação, penso que parecerás arrogante e imponente. Limita cada cena ao que está a acontecer NAQUELE MOMENTO. Essa é a minha forma de trabalho.


Deve ser incrível passar de uma das séries mais caras alguma vez filmadas na Europa (Game of Thrones) para outra produção televisiva de alta qualidade (Borgia, do canal francês Canal+, não confundir com o The Borgias do Showtime), especialmente quando estás no início da tua carreira. Que papel irás desempenhar nesta série televisiva, e como tem sido a experiência?

Tomei conhecimento que tinha sido escolhido para o Borgia pouco tempo depois de começar a filmar o Game of Thrones. Outubro e Novembro de 2010 foram quase totalmente passados a viajar entre Belfast e Praga para cumprir compromissos de filmagens nas duas séries. Borgia conta a história da conhecida dinastia italiana que assassinou, subornou e chantageou para conseguir o poder na Igreja Católica e na sociedade italiana nos séculos XVI e XVII. A série conta com John Doman do The Wire no papel principal como Rodrigo Borgia, e é basicamente escrita por Tom Fontana (do Oz da HBO) e é realizada parcialmente por Oliver Hirschbeigel (Downfall).

Desempenho o papel de Giovanni Di Medici, filho do falecido Lorenzo, o Magnifico. Após a morte do pai, Giovanni é nomeado Cardeal com 16 anos, uma honra sem precedentes e um feito na altura. A série será tão intransigente e, em certos aspectos, tão extrema quanto o GoT ou o que quer possas referir. O trabalho é intenso e alguns dos momentos extremamente exigentes, mas considero que foi uma experiência de representação muito recompensadora. Hirschbeigel é um realizador fenomenal (como qualquer pessoa que viu Downfall poderá confirmar) e os guiões são de alta qualidade.

Sinto-me muito sortudo por ter participado em dois projectos tão prestigiantes e só posso agradecer a toda a gente que mudou a minha vida ao longo do último ano. O David Benioff e o D.B. Weiss, o Frank D., o Brian Cogman, o GRRM e todas as outras pessoas envolvidas no GoT; em Praga, o Tom Fontana e o Oliver H. Não lhes posso agradecer o suficiente por me confiarem as suas personagens e espero que tenha feito justiça ao seu trabalho maravilhoso.


Estou a ver que o futuro reserva grandes coisas ao Giovanni! Voltando ao Game of Thrones, se a série tiver outra temporada, tens alguma suspeita do rumo que a história de Samwell vai tomar? Ou, se tentaste propositadamente manter-te ignorante a esse respeito, tens algumas esperanças em relação ao rumo que a sua história possa tomar?

Neste momento, não faço ideia. Acho que é cedo demais para começar a tomar decisões acerca de como irei abordar certos elementos da história, sejam eles quais forem. Na escola dramática, sempre me disseram que tomo decisões demasiado cedo no processo e agarro-me a elas sem sugestões de experimentação e desvios depois de chegar a essas decisões. Sei que se começar a ler a história agora começaria a tomar decisões e a fazer escolhas no que respeita ao meu desempenho e na altura em que a série (espero) regressar, estarei aborrecido com elas - a emoção e a atitude já seriam velhas.

Sempre fui o mesmo. Começo a representar assim que começo a ler e depois revisito constantemente os momentos na minha cabeça para não os esquecer e, é um facto da arte, todos os actores por vezes tomam decisões erradas. Se ficar sentado em casa a dirigir-me a mim próprio sem opinião de ninguém que esteja numa posição em que possa dar um conselho válido e apropriado, posso estar a fazer escolhas emocionais incrivelmente erradas que depois teria de alterar. Parece estranho, mas não há forma de ler o livro e não começar imediatamente a preparar-me para as cenas, e é demasiado cedo para começar a fazer isso de forma saudável. Seja o que for, estou entusiasmado. As pessoas dizem-me que o Samwell tem alguns momentos interessantes e coisas a combater à medida que a história avança, e tenho fé que a escrita torne o que quer que seja em algo fascinante e pelo qual vale a pena esperar.



Estive em Magheramorne durante algumas das filmagens, e do que me lembro principalmente - para além do quão fantásticos eram os cenários - é de como era frio, húmido e lamacento, mas também da vibração, de como toda a gente parecia realmente concentrada no que estava a fazer, do sentido de propósito comum.

Para encerrar esta entrevista, como era para ti um dia típico nas filmagens, como era interagir com este conjunto de actores - muitos novatos, alguns veteranos - tanto à frente como atrás das câmaras?

Bem, provavelmente deveria começar a resposta prestando um grande tributo à simparia e generosidade dos actores mais experientes. Aqueles com quem interagimos mais foram obviamente o Owen, o James Cosmo (Comandante Mormont) e o Peter Vaughan (Meistre Aemon). Todos eles nos deram conselhos tão valiosos. Não com o 'deixa-me dizer-te uma coisa', mas em conversas. Eram tão fascinantes, engraçados e receptivos para connosco.

Para além de que as suas capacidades e habilidades como actores são simplesmente atordoantes. Estavas lá quando o Cosmo proferiu o seu discurso à Patrulha da Noite e tenho a certeza que concordas que foi absolutamente brilhante. Tão poderoso. Conhecer o Peter Vaughan como um homem cuja saúde parece não ser a melhor, nos últimos anos, e depois vê-lo representar com uma intensidade tão incrível é algo a que vale a pena assistir. Lembro-me de o ver na televisão desde tenra idade e ele fez um filme com o Sinatra, por amor de Deus. Ele é simplesmente um dos homens mais doces que podes esperar encontrar em qualquer profissão.

A relação que se formou entre os actores jovens da Patrulha da Noite foi muito rápida. Encontrámo-nos pela primeira vez para um treino de luta com o Buster. Tinha ouvido falar bastante sobre o Kit Harington (Jon Snow) das pessoas na escola dramática, que o tinham visto em toda a sua glória no "War Horse" e que estavam devidamente impressionadas por eu  ir trabalhar com ele. Assim que nos conhecemos, ficámos amigos e dos outros todos também. Fiquei ligeiramente preocupado por vir de uma área e casa da classe trabalhadora e poder ficar intimidado por actores experientes vindos de contextos mais privilegiados. Contudo, não poderia ter desejado conhecer um grupo de jovens mais nobre e terra-a-terra.

Para começar, tinham sotaques. O amplo e quente do Yorkshire, o engraçado e penentrante Scouse e o jovem da parte Este de Londres eram música para os meus ouvidos. O período de filmagens foi, na sua maioria, para mim e para o Kit, à espera para filmar. Isto significou que por vezes tínhamos dois ou três dias de folga de seguida. Foi aqui que eu e o Kit criámos uma ligação. Aborrecidos em quartos de hotel, a ver filmes menos do que clássicos do James Bond, falando e falando do Game of Thrones e passando o tempo de qualquer forma que achássemos apropriada. Os dias de filmagens podiam ser bastante extenuantes fisicamente (como a cena em que sou vencido pelo Rast) e outros extenuantes mentalmente (dias em que nos sentávamos com os fatos durante horas nos trailers à espera que nos chamassem para cenas). Com uma fraca companhia, esses dias seriam insuportáveis, mas depressa lhes encontrámos o humor e assim acabou por não ser tão intimidante. Todos sabíamos que fazíamos parte do clube de sortudos que conseguiram estes papéis.

Só posso falar por mim, mas tenho a certeza que os outros concordariam: apreciei cada minuto. Sim, o cenário do Castelo Negro era um pântano na maior parte dos dias. Chuva, lama, pedras afiadas, cheiros desagradáveis de carcaças de animais e um frio glacial. Mas não tínhamos de viver lá. Era trabalho e um ambiente assim ajuda os actores a encontrarem o caminho para aquele mundo. Um cenário brilhante e luxuoso teria comprometido o nosso investimentono no mundo do cenário. O Castelo Negro é um sítio profundamente desagradável. Não estou a dizer que o cenário o era, mas dava-nos a inspiração suficiente para, de algum modo, nos transportarmos para lá. Cenários incríveis, actores incríveis, equipa incrível (como pessoas ou como profissionais), tudo aponta para que seja um trabalho incrível no seu todo. Sinto-me privilegiado por estar envolvido e uma segunda temporada (se acontecer) seria não só a cereja em cima do bolo, como seria, por si só, um bolo completamente novo.

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