Entrevista a John Bradley-West (1.ª Parte)

Aqui fica a tradução da entrevista que John Bradley-West (Samwell Tarly) deu ao Elio do Westeros. Como é extensa, será dividida em dois posts diferentes. A segunda parte vem amanhã!


Uma das pessoas que conheci quando visitei Belfast foi John Bradley-West, o actor que faz de Samwell Tarly. Era um dos actores que descobrimos ter sido escolhido através de uma referência nos recônditos da internet (de facto, foi no website da sua escola dramática), e depois a dada altura ele juntou-se ao Twitter e demonstrou-se hilariante com as suas observações mordazes e honestas. Lembro-me de lhe perguntar em Belfast se era mesmo assim na "vida real", depois de reparar que parecia algo reservado na festa, e ele admitiu que o Twitter era uma espécie de "tubo de escape".

Depois de se formar na escola dramática, conseguiu rapidamente dois papéis notáveis: não apenas Samwell, mas também Giovanni de Medici, na série "Borgia" do Canal+. Abaixo, podem ler mais sobre a sua educação como actor, as suas visões sobre como abordar uma personagem, os seus talentos particulares, o que aconteceu quando foi chamado para uma segunda audição e ficou pálido e suado quando o comboio não chegou a tempo...


Como te sentiste ao conseguir um papel numa produção tão grande, quando ainda nem tinhas saído da escola dramática? Ficaste intimidado?

Sim, intimidado talvez seja uma palavra um pouco negativa, mas não posso negar que foi um pouco opressivo. Olhar para a lista do elenco na internet e ver pessoas como o Sean, o Mark e pessoas que observei e admirei durante tanto tempo, foi uma espécie de emoção aterradora, a melhor forma que encontro para o descrever. Contudo, acredito que tive muita sorte em estar na escola dramática quando consegui o papel. Foi bastante assustador, e tremo só de pensar em como teria ficado mais assustado se tivesse saído da escola dramática um ano antes, não tivesse trabalhado, e de repente tivesse conseguido um papel destes.

Quando decorreu a audição para o Game of Thrones, tinha estado a representar de uma forma constante ao longe de 3 anos, os meus músculos da representação estavam flexíveis e treinados, e as técnicas e aptidões que tive de adquirir ainda estavam frescas na minha cabeça e prontas a ser usadas. Foi também muito valioso ter membros da equipa de ensino (actores experientes e directores por mérito próprio) com quem discutir todo o processo. Foram incrivelmente solidários, e deram-me muitos conselhos e encorajamento. Se não tivesse tido essa âncora, teria-me sentido mais exposto e à deriva. Os meus amigos também foram fantásticos, mas depois das felicitações, das palmadas nas costas, dos despenteares de cabelo e das palavras simpáticas terem acalmado, apercebi-me que, de facto, tinha trabalho para fazer. Ia ser uma experiência que nunca esqueceria. Foi aí que os nervos começaram.


Já tinhas um agente nessa altura que te conseguiu a audição, ou a escola dramática facilitou, de alguma forma, que os alunos entrassem em contacto com os directores de elenco?

A forma como a maior parte das escolas dramáticas funcionam no Reino Unido (certamente a forma como o meu treino funcionou) é a seguinte: nos primeiros dois anos do curso de três anos, estudas técnicas e diferentes disciplinas teatrais, como teatro naturalista como o de Chekov, teatro surrealista/absurdo ao estilo de Brecht ou Beckett e, claro, uma abundância de Shakespeare a juntar ao movimento intenso e ao treino vocal. Ensaias cada peça que fazes nesses primeiros dois anos durante cerca de 4 semanas e depois representa-la a solo "in house", o que significa para uma assitência que consiste apenas no staff e em outros alunos da escola. No terceiro ano, deixamos entrar o público e representas 3 peças ao longo do ano para um público pagante. Os agentes são convidados a vir e observar estas representações e são encorajados a abordarem os alunos que chamarem a sua atenção.

Para além disso, fazemos também uma "apresentação de exposição" num teatro de Londres, onde representamos num monólogo de 60 segundos e num diálogo de 90 segundos com outro estudante. Foi nesse evento que o meu agente actual expressou o seu interesse em fazer contrato comigo. Fiz um monólogo do absurdo "The Lesson", de Eugene Ionesco, e um diálogo de uma peça cómica de Neil Simon. Fui abordado por várias agências, mas depois de me reunir com elas e com o meu agente actual, a sheperd management (o primeiro agente a contactar-me após a exposição - 2 minutos após o recolher das cortinas) foi a minha favorita. Assinei com eles com duas peças por representar.

O Game of Thrones foi a primeira audição a que me enviaram. Tive de pedir um dia de folga dos ensaios para a minha peça final ("Erpingham Camp", de Joe Orton), para ir à audição em Londres. O director aceitou amavelmente em deixar-me ir. Representei a cena no topo da Muralha com o Jon, em que ele explica a sua história e descreve a relação com o seu pai, etc. Estava um pouco assustado, mas a peça foi feita com apenas mais duas pessoas na sala. Como foi a ronda inicial, não havia lá nenhum representante do GoT. A segunda audição (da qual recebi notícia 2 semanas mais tarde) foi ligeiramente mais assustadora porque ia conhecer o produtor Frank Doelger e o escritor D.B. Weiss, bem como a directora de elenco, a própria Nina Gold. Apesar dos meus planos, a Virgin Trains trocou-me as voltas e o meu comboio estava atrasado, foi reencaminhado, estava lento e simplesmente odioso nesse dia. Cheguei 20 minutos atrasado, com uma figura pálida, suada e bastante stressada.

Tentei não deixar que a experiência afectasse o meu desempenho e, de alguma forma, consegui recuperar a compostura a tempo de representar a mesma cena. Acalmado pela simpatia e compreensão do Frank e do D.B., senti-me confiante e feliz com os meus esforços. Os ensaios para o "Erpingham Camp" continuaram em ritmo acelerado e as representações foram e vieram. Deixei oficialmente a escola dramática e depois esperei durante um mês. O meu agente deu-me a notícia de ter sido escolhido e tratei de dizer a toda a gente, preocupar-me, pesquisar, atormentar-me, pensar, preocupar-me um pouco mais e finalmente aceitar e avançar com a trabalho que tinha em mãos.


Acho as selecções das tuas apresentações muito interessantes. Talvez muitas das peças absurdas tenham um tom tragico-cómico, e mencionas que a outra foi uma comédia de Neil Simon. A comédia é algo que te atrai, ou sentes tens um jeito particular?

A comédia é algo com o qual tenho estado bastante obcecado desde cedo. Sempre achei que a comédia é a menor distância entre duas pessoas. Usei a minha própria habilidade com ela e o conhecimento que tenho para formar a base de muitas relações que estabeleci na vida. Os meus professores na escola dramática elogiaram e criticaram a utilização da comédia nas minhas representações durante muito tempo. Diziam que tinha uma tendência a, de alguma forma, representar as cenas mais trágicas de uma forma ligeiramente irreverente. Genuíno e perfeitamente válido, mas contudo parecia estar à procura de alguma forma de humor em qualquer coisa, desde Macbeth a Hamlet a... tudo o resto. Deram-me muito espaço para afinar a minha comédia. Papéis cómicos como o Toby Belch no Twelfth night e Uncle Vanya. Comédia da Restauração. Comédia de Shakespeare, comédia de Brecht, de Becket, comédia naturalista, bem como palhaçadas físicas e comédia em movimento.

Como personagem, mais no guião do que no livro, Samwell tem muita comédia nele. Na maior parte do tempo, ele é o alvo da piada da sua própria vida. Foram escritas cenas adicionais nas quais o Jon e o Sam discutem raparigas e sexo e é quase uma cena cómica a dois. Alguns dos momentos de conversa mais calmos entre Sam e Jon dão grande espaço ao humor. Acho que é isso que atrai Sam ao Jon. Acho que ele vê o Sam como alguém com grande humanidade e um humor enraizado na inteligência e auto-consciência. O Samwell sabe o que é e não se engana a si próprio achando que é algo que não é. Acho que o Jon se sente atraído por isso. Decidi muito cedo, após ler o guião, que, com tantas coisas violentas e desagradáveis a acontecerem no resto da história, era necessário que se estabelecesse uma atmosfera confortável e familiar onde Sam e Jon estão juntos para fornecer um ligeiro alívio. Acho que os escritores e os realizadores concordaram, porque se agarraram à minha relação com o Kit dessa forma.

Apesar de ter de apontar que, naturalmente, a personagem não pode e não aparece como uma personagem humorística. Tentei representar a dor e a miséria e o medo na apresentação do Samwell com a maior dor e miséria e medo que consegui reunir. É apenas quando ele assenta num ritmo com o Jon e o seu 'romance', como gosto de lhe chamar, toma forma, que a sua confiança cresce e ele se permite a si próprio dar voz às suas opiniões e a certos aspectos da sua vida; são esses momentos de belo detalhe humano nos guiões que tentei transmitir tanto quanto possível.

(continua)

Leave a Reply

Partilhar